Uma pesquisa recente publicada na prestigiada Academy of Management Journal, intitulada "Sustentabilidade Compartimentada: Como a Gestão de Paradoxo se Desfaz na Implementação de Práticas Integrativas", lança luz sobre os desafios enfrentados por organizações ao tentarem incorporar a sustentabilidade de forma holística. O estudo, liderado por Juliane Reinecke, Michael Etter e Lucas Amaral, aborda a complexidade inerente à integração de iniciativas sustentáveis, muitas vezes confinadas a silos organizacionais, e como isso impacta a capacidade das empresas de gerenciar demandas contraditórias de maneira eficaz.
Tradicionalmente, muitas empresas abordam a sustentabilidade como uma função isolada ou um conjunto de projetos pontuais, em vez de um princípio estratégico transversal. Essa abordagem compartimentada, ou "siloed sustainability", embora possa gerar resultados localizados, dificulta a criação de um impacto sistêmico e sustentável. A pesquisa destaca que a pressão crescente por transparência e responsabilidade ambiental, social e de governança (ESG) exige uma reestruturação fundamental das estratégias corporativas, que vá além das soluções fragmentadas.
A gestão de paradoxo, um campo de estudo que investiga como as organizações lidam com demandas simultaneamente opostas, como lucratividade e responsabilidade social, é central para a compreensão dos entraves na implementação da sustentabilidade. O artigo explora como as estratégias convencionais para gerenciar esses paradoxos frequentemente se mostram insuficientes ou até mesmo se desfazem quando as empresas buscam integrar práticas sustentáveis em suas operações diárias e estratégias de longo prazo, exigindo uma visão mais abrangente e menos linear.
“Acreditamos que a sustentabilidade não é uma meta a ser atingida, mas um paradoxo contínuo a ser gerenciado, e as abordagens atuais muitas vezes falham em lidar com essa tensão inerente durante a integração”, comentam os autores sobre a premissa central de seu trabalho.
Os pesquisadores sugerem que a natureza intrinsecamente multifacetada da sustentabilidade — que abrange aspectos ambientais, sociais, econômicos e éticos — expõe as fragilidades das abordagens de gestão de paradoxo que não foram concebidas para lidar com tamanha interconexão. A transição de uma visão fragmentada para uma abordagem integrada força as organizações a confrontarem contradições profundas em suas culturas, estruturas e processos, muitas das quais foram ignoradas ou postergadas anteriormente.
As descobertas do estudo têm implicações significativas para líderes e formuladores de políticas empresariais. Ele indica que a simples adoção de novas tecnologias ou a criação de departamentos de sustentabilidade não é suficiente. Em vez disso, é fundamental que as organizações desenvolvam uma capacidade adaptativa para reconhecer, aceitar e, de fato, alavancar as tensões paradoxais que emergem quando se busca uma sustentabilidade genuinamente integrada, promovendo um diálogo contínuo e a inovação.
Os pesquisadores argumentam que “para superar a sustentabilidade compartimentada, as empresas precisam repensar fundamentalmente suas estruturas de gestão, cultivando uma mentalidade que abrace a complexidade e a interdependência dos objetivos sustentáveis e de negócios”.
O artigo conclui que o fracasso das estratégias de gestão de paradoxo em ambientes de implementação de práticas integrativas não deve ser visto como um obstáculo intransponível, mas como uma oportunidade para desenvolver novos modelos de governança e liderança. Tais modelos devem ser capazes de navegar por dilemas complexos, promover a colaboração interdepartamental e cultivar uma cultura organizacional que valorize tanto os resultados financeiros quanto o impacto socioambiental, garantindo assim uma resiliência duradoura.
A pesquisa de Reinecke, Etter e Amaral contribui de forma crucial para o campo da gestão estratégica e da sustentabilidade, fornecendo um arcabouço para entender as dinâmicas subjacentes que impedem a progressão de práticas sustentáveis. Ela sublinha a urgência de as empresas adotarem uma visão mais sofisticada e integrada para a sustentabilidade, abandonando a fragmentação em favor de uma abordagem mais coesa e paradoxalmente consciente, que responda de forma eficaz aos desafios globais e às expectativas dos stakeholders, preparando as organizações para um futuro mais responsável e resiliente.