Banco da Inglaterra Aprimora Análise de Futuro com Previsão Estratégica

A instituição financeira central adota uma abordagem adaptativa e prospectiva para a gestão de riscos, integrando novos métodos de previsão para lidar com desafios globais e complexos.

09/12/2025 às 17:17
Por: Redação

Em um cenário mundial de rápidas transformações, onde a incerteza se tornou uma constante, o Banco da Inglaterra, uma das mais antigas e renomadas instituições financeiras globais, implementou em 2023 uma prática mais formal de previsão estratégica para seus executivos e comitês. Esta iniciativa, impulsionada por Sarah Breeden, então diretora executiva de Estabilidade Financeira, Estratégia e Risco, e atualmente vice-governadora de Estabilidade Financeira, visa equipar o Comitê de Política Financeira (FPC) com ferramentas para discutir trabalhos incomuns, adotando uma perspectiva “heterodoxa e provocadora” para antecipar riscos e oportunidades futuras.

 

A necessidade de expandir os horizontes da gestão de riscos é amplamente reconhecida, visto que as instituições financeiras centrais desempenham um papel crucial na manutenção da estabilidade econômica. Historicamente, bancos como o Banco de Amsterdã (1608), o Riksbank da Suécia (1668) e o próprio Banco da Inglaterra (1694) surgiram em resposta a grandes turbulências, indicando uma tradição de adaptação a desafios sem precedentes. Hoje, o Banco da Inglaterra, conhecido como “A Velha Dama da Threadneedle Street”, mantém seu papel de guardião da estabilidade monetária e financeira, sob um mandato governamental.

 

A Evolução da Gestão de Riscos

As funções dos bancos centrais são tradicionalmente sustentadas por estruturas de gestão de riscos quantitativas e rigorosas, focadas em controle de crédito e mercado, mitigação de riscos operacionais e proteção da credibilidade da política monetária. Contudo, o ambiente global atual, caracterizado por turbulência, incerteza, novidade e ambiguidade (o paradigma TUNA), tem exigido uma reavaliação. A crescente frequência e severidade de choques recentes no sistema financeiro global destacam a urgência de abordagens complementares que identifiquem riscos e oportunidades de forma coesa e dinâmica.


Sarah Breeden enfatizou a necessidade de “algo que olhe para fora e para cima, heterodoxo, provocador, até”.


Essa nova perspectiva inclui a consideração de tendências que transcendem os domínios tradicionais da economia e das finanças, como pandemias, inteligência artificial, mudanças climáticas e geopolítica. A previsão estratégica surge, então, como uma ferramenta adaptativa e prospectiva para a gestão de riscos, complementando as metodologias tradicionais ao explorar múltiplos futuros plausíveis para antecipar mudanças econômicas globais e desafios de política.

 

O Desafio de uma Linguagem Comum

A salvaguarda da estabilidade monetária e financeira é uma tarefa complexa, exacerbada pela interconexão do sistema financeiro do Reino Unido, uma vasta rede de bancos, seguradoras, mercados e instituições não bancárias. Essa complexidade exige que o Banco da Inglaterra monitore grandes volumes de dados, realize análises de vulnerabilidades e conduza testes de estresse anuais para avaliar a adequação de capital e a resiliência sistêmica. Tais atividades alimentam as discussões do FPC, cujo mandato é identificar, monitorar e reduzir riscos sistêmicos.

 

A introdução da previsão estratégica, que se baseia em narrativas criativas para construir conhecimento, representou um desafio cultural no Banco da Inglaterra. Ao contrário da análise de dados, que busca precisão, a previsão estratégica abraça a ambiguidade e a possibilidade. Para garantir a adesão interna, a equipe de estratégia e avaliação de riscos precisou encontrar uma linguagem comum que demonstrasse como a previsão complementa os dados, iluminando pontos cegos, desafiando suposições e expandindo a visão estratégica além do que os números podem revelar isoladamente.

 

Para superar a resistência inicial, foi fundamental mostrar que, embora diferente, a nova abordagem compartilhava o rigor analítico do Banco. Os cenários foram construídos com base em uma análise sistemática de risco setorial, avaliando probabilidade e impacto de tendências emergentes. A colaboração com diversas equipes na cocriação desses cenários foi crucial para alinhar a previsão estratégica aos objetivos organizacionais e reforçar o entendimento de que ela é complementar, não competitiva, aos frameworks analíticos existentes.

 

Aplicação Prática da Análise de Horizonte

A previsão estratégica, também referida como “análise de horizonte de longo prazo” no banco, embora ainda em evolução, está ganhando força. Um relatório do Gabinete de Avaliação Independente (IEO) do Banco da Inglaterra, realizado em 2023, avaliou o uso da análise de horizonte, identificando características positivas e variações na prática entre as áreas. O trabalho de apoio ao FPC, em particular, progrediu através de uma ampla gama de engajamentos externos, incluindo apresentações, workshops e treinamentos formais, como o Oxford Scenarios Programme na Saïd Business School da Universidade de Oxford.

 

A colaboração com especialistas externos e o aprendizado com outras organizações foram essenciais para alinhar conceitualmente e construir credibilidade interna. O uso da abordagem de Oxford para mapear o domínio de inquérito forneceu uma referência visual clara, facilitando a compreensão para os não familiarizados com a prática. Este esforço de análise de horizonte, ancorado em uma análise de risco setorial e moldado por um amplo engajamento, culminou em um processo de desenvolvimento de cenários alinhado ao mandato de estabilidade financeira do banco.

 

Essa combinação de rigor analítico com imaginação estratégica permitiu aos formuladores de políticas testar a resiliência de suas ferramentas, explorando futuros plausíveis e antecipando uma vasta gama de riscos sistêmicos. As discussões resultantes foram pautadas na exploração de futuros divergentes e no teste de premissas subjacentes, culminando em uma abordagem estrategicamente adaptativa para as prioridades de médio prazo. O IEO recomendou desenvolver uma definição compartilhada de análise de horizonte, fortalecer a arquitetura organizacional e fomentar uma cultura de apoio, incluindo maior engajamento externo e a criação de um grupo de praticantes internos.

 

A experiência do Banco da Inglaterra demonstrou que a incorporação da previsão estratégica, baseada em insights qualitativos e engajamento significativo com as partes interessadas, pode enriquecer significativamente a deliberação política, especialmente em contextos de incerteza e rápida mudança. Embora seja difícil medir resultados explícitos, as discussões em si cumprem um propósito fundamental: abrir mentes para resultados alternativos, afastando-se de suposições padronizadas.

 

Do ponto de vista organizacional, o trabalho de previsão estratégica tem contribuído para o desenvolvimento de capital social, aprofundando conexões interpessoais, cultivando a confiança e aprimorando a capacidade de colaboração interfuncional do Banco. Essas práticas de trabalho colaborativo, ativamente incentivadas, são vitais em um ambiente TUNA, onde crises podem surgir rapidamente de direções imprevistas, exigindo que os colegas compartilhem uma linguagem organizacional comum para navegar com eficácia nas decisões em tempo real.

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