Em um cenário global marcado por incessantes turbulências, líderes de diversas esferas frequentemente direcionam sua atenção para as grandes incógnitas, como a volatilidade política, a aceleração tecnológica, as rupturas ecológicas e a instabilidade econômica. Nesse ambiente, onde a incerteza se tornou a norma, o planejamento de cenários emerge como uma ferramenta indispensável, mas sua força primordial reside não apenas em explorar o desconhecido, mas em elucidar o que já é previsível sobre o futuro, provendo alicerces firmes para a elaboração de estratégias.
A prática de planejamento de cenários, idealizada para guiar em períodos caóticos, oferece uma abordagem estruturada. Seu objetivo principal não é predizer o futuro, mas sim construir quadros de futuros alternativos plausíveis, que permitem desvendar premissas ocultas, questionar o que é conhecido e o que é desconhecido, e direcionar a atenção dos gestores para fatores que poderiam ser inadvertidamente ignorados. A verdadeira capacidade estratégica, portanto, reside tanto na antecipação de mudanças quanto no reconhecimento daquilo que permanece constante.
Embora a visão do futuro como uma tela em branco de infinitas possibilidades estimule a criatividade e liberte de mentalidades fixas, a realidade é que ele não é um terreno desimpedido. O futuro é profundamente moldado por infraestruturas enraizadas, legados institucionais, forças sociais duradouras e tendências de longo prazo, muitas vezes lentas e previsíveis. Algumas dessas forças, como o acúmulo de carbono na atmosfera, são latentes, mas suas consequências são inevitáveis e persistirão ao longo do tempo.
Em momentos de intensa volatilidade, há uma tendência de supervalorizar as incertezas, negligenciando os fatores estáveis ou "travados" pelo passado. Pioneiros do planejamento de cenários, como Herman Kahn, já enfatizavam a importância de identificar tendências “inevitáveis”, enquanto Pierre Wack se referia aos “elementos pré-determinados”. O desafio para os líderes é reconhecer essas certezas, que funcionam como condições de contorno, moldando a plausibilidade das mudanças e revelando as áreas mais propícias para intervenções estratégicas eficazes.
Reconhecer a estrutura subjacente à mudança é tão libertador quanto antecipar o que pode surgir. Para auxiliar na identificação e investigação de certezas no planejamento estratégico, é sugerido um framework com cinco tipos distintos: certezas materiais e físicas, baseadas em conhecimento e expertise, temporais e dependentes do caminho, políticas e econômicas, e normativas e culturais.
As certezas materiais e físicas, por exemplo, estão enraizadas em ecossistemas ambientais e infraestruturas sólidas, como cadeias de suprimentos refrigeradas ou a infraestrutura portuária, que definem os limites do possível para empresas como a Trader Joe’s. Já as certezas baseadas em conhecimento e expertise são sustentadas por regimes de conhecimento dominantes e redes de especialistas que, ao padronizarem a medição e a modelagem da realidade, atuam como restrições invisíveis.
As certezas temporais e dependentes do caminho são estruturadas pela inércia de decisões passadas, ciclos de planejamento prolongados ou compromissos intergeracionais. Por sua vez, as certezas políticas e econômicas, frequentemente sustentadas por interesses e poder, manifestam-se através de políticas e estruturas de mercado que consolidam caminhos atuais. A matéria ainda ressalta que, embora as certezas normativas e culturais sejam valores e princípios sociais arraigados, elas também podem ser maleáveis e contestadas ao longo do tempo.
“O trabalho de estratégia não é apenas imaginar o que virá, mas também reconhecer o que já está estabelecido e quem está investido em mantê-lo assim”, pontua a especialista.
A volatilidade recente tem colocado em xeque mandatos políticos e estruturas de governança antes consideradas inabaláveis. Instituições como tribunais internacionais e regimes regulatórios estão em constante mudança, forçando os tomadores de decisão a identificar onde o poder reforça a estabilidade e onde busca minar forças antes consolidadas. É fundamental discernir quais certezas são benéficas e protetoras – como a cultura de segurança na energia nuclear – e quais são mal-adaptativas, perpetuando ineficiências ou legados obsoletos, para então defendê-las ou desmantelá-las.
O framework das certezas pode ser integrado em diversas fases do processo estratégico, desde a interrogação de premissas até a construção e refinamento de cenários. No início, identificar essas certezas ajuda a definir os limites do que é fixo ou de movimento lento, antes de se aprofundar nas forças voláteis. Após a elaboração de cenários divergentes, é possível detectar certezas refinadas ao buscar elementos comuns que persistem em todas as narrativas, servindo como uma verificação cruzada para fatores que qualquer estratégia viável deve abordar.
Uma etapa crucial é a realização de um escaneamento ambiental estruturado para tornar explícitas as premissas sobre mercados, tecnologias e regulamentações. Diferenciar fatores incertos e incontroláveis daqueles mais previsíveis e de movimento lento é essencial. Este diálogo colaborativo, onde a equipe questiona suas suposições e áreas de desacordo, é vital para evitar uma convergência prematura em hipóteses não examinadas e para combater os “cenários fantasmas”, termos cunhados pelos colegas Trudi Lang e Rafael Ramírez, que podem distorcer a previsão e comprometer a execução estratégica.
A utilidade desse processo brilha ao expor as suposições subjacentes, permitindo que sejam examinadas, desafiadas e usadas para alinhar a equipe. Por exemplo, uma empresa de energia planejando a demanda por inteligência artificial precisa decidir se assume uma redução de consumo por chips eficientes ou um aumento insaciável da necessidade elétrica, tratando cada premissa como uma certeza ou uma incerteza crítica a ser explorada em cenários alternativos. A clareza advinda dessa distinção é um pilar para o pensamento estratégico robusto.
Uma estratégia eficaz exige um equilíbrio delicado entre a atenção às certezas e às incertezas. Enquanto as certezas oferecem pontos de ancoragem, elas não ditam a direção em um mar de incertezas radicais. É na interação dinâmica entre o que se sabe e o que não se sabe que o pensamento estratégico se aprimora.
No planejamento de cenários, as certezas não são meros planos de fundo estáticos, mas elementos estruturantes que sustentam futuros plausíveis e divergentes. As incertezas críticas, então, se desenrolam sobre essas âncoras, animando as distinções entre os cenários. Questionar como elementos fixos podem constranger, canalizar ou amplificar o desdobramento de forças voláteis é fundamental. Por exemplo, ao criar cenários sobre o futuro do descarte de resíduos, a persistência dos plásticos e os limites da reciclagem seriam certezas onipresentes, enquanto inovações em materiais biodegradáveis seriam forças voláteis interagindo com elas.
Este framework, embora não seja determinista, convida à reflexão sobre quais fatores perdurarão e quais servirão para ancorar incertezas maiores. Ao incorporar a atenção às certezas, as organizações constroem um arcabouço mais rico e honesto para o trabalho de previsão, garantindo que as visões estratégicas estejam enraizadas nas realidades materiais, institucionais e culturais. Esse não é um diagnóstico pontual, mas um hábito contínuo que fortalece a imaginação estratégica e aprimora a tomada de decisões sob pressão, movendo as empresas de uma postura reativa para uma de maior clareza estratégica e proatividade.