Uma pesquisa recente publicada no renomado *Journal of Consumer Psychology* sugere uma abordagem inovadora para as marcas lidarem com a negatividade de avaliadores e comentários online: a de abraçar e ostentar os próprios insultos que lhes são dirigidos. Este estudo, que desafia a sabedoria convencional do gerenciamento de reputação, demonstra que, sob certas condições, a “reapropriação” de rótulos negativos pode gerar um aumento significativo no interesse do consumidor, exemplificado por um caso em que o time de hóquei Carolina Hurricanes gerou mais de 875 mil dólares em vendas de mercadorias após transformar um insulto em um slogan de marketing.
Diante da crescente e inevitável presença de feedback negativo no ambiente digital, compreender como as marcas devem reagir a críticas é crucial para a gestão da imagem e o desempenho comercial. As pesquisadoras Katherine Du, Lingrui Zhou e Keisha Cutright aprofundaram-se nessa dinâmica, investigando a eficácia de uma estratégia contraintuitiva onde as empresas intencionalmente adotam e capitalizam sobre as ofensas direcionadas a elas, transformando-as em um distintivo de confiança e humor.
Para validar a hipótese de que as marcas podem se beneficiar da reapropriação de insultos, as pesquisadoras conduziram três estudos rigorosos. Em um teste prático, com anúncios veiculados no Facebook, foi demonstrada a superioridade da abordagem: um anúncio de uma loja de eletrônicos fictícia que assumia a descrição de ser “uma ‘loja de cérebro de pássaro e fora de moda’” alcançou uma taxa de cliques de 7,12%, superando os 5,62% obtidos por um anúncio que simplesmente negava a mesma crítica de uma estrela.
“Marcas que se reapropriam de um insulto são percebidas como mais humorísticas e confiantes pelos consumidores, o que impulsiona o interesse do público.”
Uma segunda etapa da pesquisa reforçou esses achados, indicando que a estratégia de reapropriação gerou consideravelmente mais interesse dos clientes para a marca em comparação com as táticas de ignorar, negar ou pedir desculpas pela crítica. Essa vantagem estratégica é impulsionada por dois fatores psicológicos cruciais: os consumidores tendem a perceber as marcas que adotam essa tática como detentoras de um apurado senso de humor e de uma confiança inabalável em sua própria identidade e oferta.
Contudo, os pesquisadores alertam para ressalvas importantes que delimitam a aplicação bem-sucedida dessa estratégia. A reapropriação de insultos, por exemplo, pode ser contraproducente e gerar um efeito reverso quando a crítica parte de um indivíduo percebido como vulnerável, como uma pessoa idosa. Neste cenário, a marca corre o risco de ser interpretada como intimidando ou desrespeitando alguém em posição de menor poder, prejudicando severamente sua reputação e a percepção pública.
Além disso, a tática se mostra ineficaz quando a crítica recebida é genuinamente justificada, como no caso de um produto com defeito comprovado, ou quando reflete preocupações morais sérias e amplamente reconhecidas, tais como acusações de sexismo ou conduta antiética. Nesses contextos, tentar abraçar o insulto não apenas falha em melhorar a imagem da marca, mas pode, na verdade, agravar a situação e amplificar o descontentamento do público, evidenciando uma falta de seriedade ou de responsabilidade.
A estratégia falha quando a crítica é justa ou envolve questões morais sérias, não devendo ser aplicada a defeitos de produto ou acusações de sexismo.
Em suma, o estudo enfatiza que a eficácia de transformar um insulto em um distintivo de honra está estritamente condicionada à natureza da crítica. A estratégia é viável e benéfica somente quando a observação negativa é percebida como infundada, inofensiva e não dirigida a grupos ou indivíduos em situação de vulnerabilidade, exigindo um discernimento apurado para sua aplicação.
Portanto, antes que uma marca decida ostentar avaliações negativas em suas campanhas publicitárias, é fundamental realizar uma análise detalhada para garantir que o insulto em questão seja trivial e não reflita falhas substantivas ou éticas. A capacidade de distinguir entre uma crítica frívola e um problema legítimo é a chave para transformar a adversidade em uma oportunidade de marketing, fortalecendo a confiança do consumidor por meio da irreverência e autoconfiança estratégicas.