Líderes Com Traços Psicopáticos Podem Evitar Punição em Casos de Má Conduta, Aponta Estudo

Pesquisa da Academy of Management Journal revela como a discricionariedade e características de personalidade afetam as respostas à inconformidade ética.

03/12/2025 às 08:15
Por: Redação

Um estudo recente, publicado no renomado Academy of Management Journal pelos pesquisadores Wei Jee Ong e Grace J. H. Lim, investiga profundamente como a autonomia decisória e traços de psicopatia em líderes influenciam diretamente suas reações diante de casos de má conduta por parte de funcionários. A pesquisa destaca que líderes com predisposições psicopáticas mais elevadas podem, de fato, explorar sua liberdade de ação para mitigar ou até mesmo suprimir punições, comprometendo a justiça organizacional e a integridade dos processos internos.

 

Esta investigação oferece uma perspectiva crítica sobre as complexidades intrínsecas à governança corporativa e à efetividade da liderança ética no ambiente de trabalho contemporâneo. Ao analisar a interação entre características de personalidade, como a psicopatia subclínica, e o poder discricionário, o estudo aponta para vulnerabilidades significativas nos sistemas de tomada de decisão, particularmente aqueles que envolvem a aplicação de disciplina e a manutenção de padrões de conduta.

 

A Dicotomia entre Discrição e Imparcialidade

Os autores detalham que, em contextos onde a discricionariedade dos líderes é amplamente exercida, indivíduos com traços psicopáticos – marcados por características como ausência de empatia, inclinação à manipulação e comportamentos impulsivos – demonstram maior propensão a utilizar essa liberdade para proteger colaboradores que lhes são estrategicamente úteis ou para evitar confrontos que poderiam expor suas próprias deficiências. Tal padrão de comportamento, segundo a pesquisa, culmina em uma aplicação seletiva da responsabilização.


“A flexibilidade na aplicação de regras, embora muitas vezes necessária para a adaptabilidade organizacional, torna-se um risco significativo quando nas mãos de líderes que carecem de uma bússola moral interna e que priorizam o interesse próprio sobre o bem-estar coletivo e a equidade”, ressaltam os pesquisadores.


A pesquisa sugere, ainda, que a capacidade de manipular situações e pessoas, intrínseca a esses perfis de liderança, possibilita desviar a atenção de irregularidades ou reinterpretar políticas internas de modo a favorecer resultados pessoais ou de um grupo específico. Esse uso distorcido da discricionariedade não apenas mina a confiança no ambiente corporativo, mas também compromete a equidade, que é fundamental para um ecossistema de trabalho saudável e produtivo.

 

Desafios na Seleção e Desenvolvimento de Lideranças

As implicações dos achados são consideráveis para os departamentos de Recursos Humanos e Compliance, que se veem diante da necessidade premente de desenvolver mecanismos robustos de controle e transparência. O estudo enfatiza que programas de treinamento para líderes devem incluir módulos focados no reconhecimento e gerenciamento de vieses inconscientes, além de estabelecer diretrizes explícitas sobre os limites da discricionariedade em todas as situações de má conduta.


“Para construir organizações mais resilientes e eticamente íntegras, é imperativo que a seleção e promoção de líderes transcendam as competências técnicas, investigando a fundo a integridade e a capacidade de julgamento moral dos candidatos”, afirmam os autores da pesquisa.


Consequentemente, as organizações são incentivadas a revisar seus processos de recrutamento e promoção, implementando avaliações psicológicas e comportamentais mais rigorosas. A promoção de uma cultura de feedback aberto e a criação de canais seguros para denúncias internas também se mostram estratégias cruciais para detectar e corrigir o mau uso da discricionariedade por parte de líderes com traços problemáticos, protegendo a cultura organizacional de possíveis distorções.

 

Os autores Wei Jee Ong e Grace J. H. Lim concluem que a compreensão aprofundada desses mecanismos é vital para salvaguardar a integridade corporativa e o bem-estar de todos os colaboradores. A pesquisa não somente lança luz sobre um aspecto desafiador da liderança, mas também pavimenta o caminho para estudos futuros sobre intervenções e políticas organizacionais capazes de neutralizar eficazmente os efeitos adversos da psicopatia na tomada de decisões éticas e na gestão da conduta.

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