Inovação Orientada por Missão Requer Abordagem Localizada

Estudo da Universidade de Cambridge destaca que o sucesso de políticas de inovação depende crucialmente da adaptação às particularidades regionais e locais.

09/12/2025 às 09:53
Por: Redação

Governos ao redor do mundo têm adotado crescentemente políticas de inovação orientadas por missão para enfrentar desafios cruciais, como mudanças climáticas, saúde pública e transformação digital. Essas missões visam estabelecer objetivos ambiciosos que mobilizam os setores público e privado, fomentam a colaboração intersetorial e aceleram o processo inovador. Contudo, um aspecto frequentemente negligenciado é que, apesar de planejadas em esferas nacionais ou supranacionais, a efetividade e o sucesso dessas iniciativas dependem fundamentalmente das localidades onde a inovação se materializa, onde empresas e instituições operam e onde as comunidades vivenciam tanto os problemas quanto os impactos das novas tecnologias.

 

Uma edição especial recente do prestigiado periódico *Cambridge Journal of Regions, Economy and Society* aprofundou-se na intrínseca relação entre essas missões inovadoras e os territórios onde se desenvolvem. Com base em extensos debates conceituais, análises históricas detalhadas e evidências empíricas coletadas na Europa, Estados Unidos, Japão, China e América Latina, a pesquisa abordou uma questão central: a política de inovação orientada por missão (MOIP) pode gerar transformações significativas sem considerar a vasta diversidade das economias regionais? A resposta categórica dos especialistas é negativa, reforçando a indispensabilidade do contexto local para o êxito dessas empreitadas.

 

A Essência Local das Missões de Inovação

Embora a política de inovação orientada por missão seja frequentemente apresentada como uma resposta contemporânea a desafios sociais complexos, suas origens históricas são profundas e remontam a iniciativas governamentais que precedem a própria terminologia. Antigamente, os Estados perseguiam missões com propósitos predominantemente militares, como o desenvolvimento de arsenais de pólvora na China imperial ou as infraestruturas navais na Europa medieval, mobilizações tecnológicas estatais que, muitas vezes, geravam impactos e avanços duradouros muito além de seus objetivos bélicos iniciais.

 

No século XX, o surgimento de missões modernas, como o Projeto Manhattan para o desenvolvimento de armas nucleares e o Programa Apollo para a exploração espacial, representou um marco. Essas iniciativas da Guerra Fria foram impulsionadas por consideráveis investimentos públicos, estreita colaboração entre governo, universidades e indústria, e um claro propósito nacional, resultando em avanços estratégicos e tecnológicos civis, como semicondutores, GPS e a internet, que remodelaram profundamente as economias regionais. No entanto, já na década de 1990, os formuladores de políticas públicas reconheceram que missões no estilo "moonshot" não podiam ser simplesmente replicadas para abordar novos desafios, como as mudanças climáticas ou a mobilidade sustentável, pois problemas sociais exigiam um envolvimento mais amplo, ferramentas políticas mais diversas e maior atenção à dinâmica da demanda.

 

Críticas e a Necessidade de Sensibilidade Regional

As políticas contemporâneas de inovação orientada por missão, portanto, diferem das suas predecessoras por visarem problemas complexos e multifacetados que transcendem setores e níveis de governança. Apesar de seu potencial, essa abordagem não está isenta de críticas contundentes. De uma perspectiva ideológica, alguns economistas de livre mercado temem que as missões permitam aos governos escolher setores ou empresas "vencedoras" ou que politizem indevidamente o processo de inovação. Outros questionam se o Estado possui a informação ou a capacidade necessárias para efetivamente guiar sistemas complexos.


“As missões podem ser mal coordenadas, inadequadamente implementadas e fracamente avaliadas. Sem um design cuidadoso, correm o risco de se tornarem slogans em vez de estratégias. Uma preocupação séria é que as missões podem ser espacialmente cegas, ignorando diferenças regionais que moldam como os objetivos são alcançados.” — Michael Kitson


As críticas práticas, por sua vez, concentram-se nos desafios de implementação. Missões podem ser mal coordenadas, inadequadamente implementadas e fracamente avaliadas. Sem um design cuidadoso, elas correm o risco de se tornarem meros slogans em vez de estratégias. Uma preocupação séria, e o foco do trabalho de pesquisa liderado por Michael Kitson e seus colegas, é que as missões podem ser "espacialmente cegas", ignorando as diferenças regionais que determinam se e como os objetivos políticos são alcançados. Essa cegueira pode minar a eficácia e exacerbar desigualdades existentes.

 

A inovação acontece em lugares com estruturas industriais específicas, instituições de pesquisa, mercados de trabalho e sistemas de governança próprios. As regiões diferem dramaticamente em sua capacidade de contribuir para as missões: algumas possuem universidades fortes, clusters de inovação vibrantes e trabalhadores qualificados, enquanto outras enfrentam desvantagens estruturais, fragilidades institucionais ou um histórico de subinvestimento. Os desafios sociais também são específicos de cada localidade. Riscos de inundação, qualidade do ar, resiliência energética ou pressões demográficas variam significativamente entre as geografias. Uma missão para promover a mobilidade sustentável, por exemplo, terá significados e abordagens muito diferentes em Londres, Lagos ou na América Latina. Essas distinções ilustram um ponto simples, mas crucial: as missões nunca são espacialmente neutras; as capacidades regionais moldam tanto a habilidade de participar das missões quanto a distribuição de seus benefícios.

 

Quatro Fatores Cruciais para o Êxito Regional das Missões

Pesquisas recentes, destacadas na edição especial do periódico, identificam quatro questões-chave que influenciam como as políticas de inovação orientadas por missão se desenvolvem nas diversas geografias econômicas. Em primeiro lugar, os arranjos de governança exercem uma forte influência sobre os resultados. Evidências de países como Espanha, Suécia, Japão e Estados Unidos demonstram que as autoridades regionais frequentemente lutam para alinhar as prioridades locais com missões definidas em nível nacional, ressaltando a necessidade de coordenação eficaz e instituições ágeis.

 

Em segundo lugar, os impactos são desiguais; estudos de programas europeus, como o Horizonte 2020 da União Europeia para pesquisa e inovação, revelam que, embora as missões possam gerar benefícios substanciais a longo prazo, esses ganhos tendem a se concentrar em regiões com fortes capacidades de pesquisa e economias abertas e dinâmicas. Terceiro, o tipo de atores que operam em uma região é um fator relevante. Pesquisas da Argentina e da China mostram como empresas estatais e veículos de investimento podem sustentar a atividade de missão em locais com capacidade limitada do setor privado, auxiliando na adaptação dos objetivos nacionais às condições locais.

 

Por fim, as missões operam dentro de sistemas políticos complexos. Trabalhos dos Estados Unidos e da China demonstram que múltiplas camadas de governo moldam a concepção e a execução das missões, tornando essencial compreender como as estratégias federais, estaduais e locais interagem ao formular portfólios de missões eficazes. Coletivamente, esses estudos revelam que as missões não apenas influenciam as trajetórias nacionais de inovação, mas também moldam poderosamente as economias regionais. No entanto, seus impactos não são uniformes; eles dependem da capacidade absortiva regional, da infraestrutura preexistente, da coerência institucional e da capacidade de sustentar investimentos complementares ao longo do tempo.

 

Rumo a uma Política de Inovação Localmente Consciente

A política de inovação orientada por missão somente cumprirá sua promessa se se tornar genuinamente sensível ao local. Isso envolve quatro requisitos principais para uma formulação e execução mais eficazes. Primeiramente, a integração da perspectiva regional deve ocorrer desde o início, tratando a diversidade espacial como um princípio fundamental de design, e não como uma consideração posterior. Em segundo lugar, o fortalecimento da capacidade institucional em múltiplos níveis é essencial, garantindo que as regiões possuam as habilidades, os recursos e as estruturas de governança necessários para se engajarem efetivamente com as missões.

 

Em terceiro lugar, o incentivo à experimentação de baixo para cima é crucial, capacitando os atores locais a inovar, adaptar e gerar soluções específicas para seus contextos. Por último, o design e a implementação das missões exigem estruturas de avaliação robustas; sem evidências sistemáticas sobre o que funciona, o que falha e por quê, as missões correm o risco de se tornarem ineficazes e de não promoverem a transformação desejada.

 

O Vínculo Indispensável entre Missões Nacionais e Força Regional

A política de inovação orientada por missão oferece um caminho poderoso para direcionar a inovação para o propósito público, e não apenas para o lucro privado. Contudo, as missões não podem ser bem-sucedidas apenas pela ambição nacional; elas exigem engajamento regional, capacidade institucional e um design focado no local. As missões necessitam dos lugares tanto quanto os lugares podem necessitar das missões para prosperar.

 

Como afirmado na conclusão do artigo introdutório da edição especial da *Cambridge Journal of Regions, Economy and Society*, uma abordagem mais granular e consciente das particularidades de cada localidade, tanto no planejamento quanto na avaliação, é essencial para que a política de inovação orientada por missão realize sua promessa transformadora. Sem uma melhor compreensão de como as missões são bem-sucedidas ou falham em diferentes cenários regionais, há um risco considerável de que as ambições nacionais não se traduzam em resultados locais eficazes e sustentáveis a longo prazo.

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